Angela Davis

(Trecho retirado do livro Raízes da razão androcêntrica,  da autoria de Guilherme Paiva de Carvalho, publicado pela Editora Atena)

Ao analisar a colonização, o movimento de independência, a luta pelo voto feminino e a condição da mulher no contexto do capitalismo nos Estados Unidos, Angela Davis (2016, p. 12) mostra que as “sociedades escravocratas foram fundadas no racismo”. Na análise da escravização e dos reflexos da colonização na estrutura simbólica e no imaginário da sociedade norte-americana — com ênfase na situação dos indivíduos escravizados e, especificamente, das mulheres africanas e afrodescendentes —, é enfatizado o caráter interseccional das categorias de raça, classe e gênero.

Nos discursos das teorias raciais, os povos africanos eram considerados como grupos selvagens que viviam em florestas e savanas, sem qualquer possibilidade de civilização. Tais discursos aparecem em autoras abolicionistas como Harriet Beecher Stowe, citada por Angela Davis (2016). No livro A cabana do Pai Tomás, Stowe descreve os grupos étnicos africanos escravizados como inferiores.

Mulheres e grupos simpatizantes se unem contra as formas de opressão nos Estados Unidos, tanto na luta antiescravagista quanto no movimento feminista. Contudo, no decorrer da independência e formação do capitalismo na sociedade norte-americana, a concepção de superioridade racial de grupos étnicos europeus torna-se um elemento importante na estrutura simbólica e social.

 

O movimento feminista questiona especificamente a supremacia dos homens. A ideia de supremacia branca constitui um dos princípios morais e culturais recorrente nos discursos e práticas que acompanham a história do movimento feminista norte-americano.

Concepções hierárquicas aparecem na estrutura cultural e simbólica nos processos de colonização. Essas noções se reproduzem nas relações sociais, nas construções discursivas e no sistema legislativo no caso da sociedade norte-americana, envolvendo a intersecção entre raça, classe e gênero. Recorrente nos discursos, a inferioridade dos povos africanos e das mulheres era vista como uma verdade inquestionável. Angela Davis (2016) cita a Declaração de Seneca Falls, de 1848. “A declaração afirmava que, como consequência da condição de inferioridade das mulheres no interior do casamento, elas também eram sujeitas a desigualdades nas instituições de ensino e na carreira” (DAVIS, 2016, p. 65).

Observa-se a intersecção entre as formas de opressão de classe e gênero. O caráter interseccional das opressões sofridas por mulheres conduz elas a movimentos sociais de resistência às relações de poder da cultura patriarcal.

Angela Davis (2016, p. 81) aponta o vínculo “entre racismo, viés de classe e supremacia masculina […]”. Durante o “primeiro encontro anual da Associação pela Igualdade de Direitos, em maio de 1867, Elizabeth Cady Stanton”, feminista e abolicionista, defendeu a ideia “de que era mais importante que as mulheres (isto é, as mulheres brancas anglo-saxãs) recebessem o direito ao voto do que os homens negros” (DAVIS, 2016, p. 81). O movimento feminista norte-americano se aproxima cada vez mais da supremacia branca e do racismo.

As leis Jim Crow institucionalizaram a segregação racial nos Estados Unidos, proibindo a presença de pessoas negras em locais e serviços públicos, escolas e meios de transporte. A referida lei vigorou durante o período de 1876 a 1965. No capitalismo, a hegemonia branca e heterossexual encontra-se no topo da hierarquia das relações de poder.

Na perspectiva de Angela Davis (2016, p. 101), “racismo e sexismo convergem […]”. Discursos racistas classificam e inferiorizam pessoas e grupos étnicos. Segundo as teorias raciais, “a população negra era supostamente incapaz de progressos intelectuais” (DAVIS, 2016, p. 109). Apesar de discursos que defendiam a incapacidade intelectual de pessoas afrodescendentes, o acesso ao conhecimento era propiciado por algumas escolas norte-americanas. Entre o final do século XVIII e o século XIX foram criadas várias instituições educacionais para pessoas negras nos Estados Unidos. “As pessoas negras que recebiam instrução acadêmica inevitavelmente associavam o conhecimento à batalha coletiva de seu povo por liberdade” (DAVIS, 2016, p. 112). Angela Davis (2016, p. 113) destaca “que os limites impostos à alfabetização da população escrava nos estados escravagistas eram muito mais rígidos do que no Norte”.

Por volta da “última década do século XIX”, o movimento “pelo sufrágio feminino começou a aceitar definitivamente o abraço fatal da supremacia branca” (DAVIS, 2016, p. 121). Em tal contexto, observa-se uma aproximação entre o racismo e a supremacia branca no movimento feminista norte-americano. As mulheres afro-americanas são excluídas, consideradas inferiores pelas mulheres brancas. “Com a chegada do século XX, um casamento ideológico sólido uniu racismo e sexismo de uma nova maneira” (DAVIS, 2016, p. 127). Os laços entre a supremacia branca e a supremacia masculina tornaram-se mais estreitos.