No período de 2021 a 2023, foram transmitidas pelo canal KuiaTv no Youtube palestras com pesquisadores e pesquisadoras do Brasil e de Portugal. A primeira palestra foi apresentada pelo sociólogo Gabriel Peters, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com o tema “Pierre Bourdieu”.
A cientista social Ivonete Soares, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), abordou o tema das “Cotas Raciais no Ensino Superior”, no canal KuiaTv. A Doutora em Filosofia Cristiane Marinho, da Universidade Estadual do Ceará (UECE) ministrou a palestra “Foucault e Judith Butler”. O Professor de Filosofia Marcos Von Zuben, do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Filosofia (UERN/Caicó) proferiu a palestra “Nietzsche e a Cultura”.
No ano de 2023, foram realizadas palestras com docentes de Portugal, tendo a participação do Professor Doutor David Assunção da Paz Beirante, do Instituto Politécnico de Santarém (Portugal), da Professora Doutora Marília Favinha, vinculada ao Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora, e do pesquisador Pedro Jorge Caetano, investigador vinculado ao Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa (CICS.NOVA). As palestras podem ser acessadas no canal KuiaTv.
Perspectivas teóricas das Ciências Sociais e Humanas serão disponibilizadas pelo site KuiaTv. Apresentamos as teorias das filósofas Angela Davis e Nísia Floresta, a partir de textos do livro Raízes da razão androcêntrica, da autoria de Guilherme Paiva de Carvalho, publicado pela Editora Atenas, publicado por meio do Programa de Pós-Graduação em Ensino (UERN/Ufersa/IFRN) com recursos da Capes.
Link das palestras do canal KuiaTv no Youtube: https://www.youtube.com/@kuiatv8847/streams
Link do livro Raízes da razão androcêntrica de Guilherme Paiva: https://atenaeditora.com.br/catalogo/ebook/raizes-da-razao-androcentrica
(Na aba Ciências Sociais e Humanas queremos colocar um espaço para textos. Seguem os dois textos que serão disponibilizados. As imagens dos textos foram enviadas em anexo, sendo salvas com a numeração da sequência que aparecem no texto)
Angela Davis
(Trecho retirado do livro Raízes da razão androcêntrica,
da autoria de Guilherme Paiva de Carvalho, publicado pela Editora Atena)
Foto: Jornal a Verdade.
Ao analisar a colonização, o movimento de independência, a luta pelo voto feminino e a condição da mulher no contexto do capitalismo nos Estados Unidos, Angela Davis (2016, p. 12) mostra que as “sociedades escravocratas foram fundadas no racismo”. Na análise da escravização e dos reflexos da colonização na estrutura simbólica e no imaginário da sociedade norte-americana — com ênfase na situação dos indivíduos escravizados e, especificamente, das mulheres africanas e afrodescendentes —, é enfatizado o caráter interseccional das categorias de raça, classe e gênero.
Nos discursos das teorias raciais, os povos africanos eram considerados como grupos selvagens que viviam em florestas e savanas, sem qualquer possibilidade de civilização. Tais discursos aparecem em autoras abolicionistas como Harriet Beecher Stowe, citada por Angela Davis (2016). No livro A cabana do Pai Tomás, Stowe descreve os grupos étnicos africanos escravizados como inferiores.
Mulheres e grupos simpatizantes se unem contra as formas de opressão nos Estados Unidos, tanto na luta antiescravagista quanto no movimento feminista. Contudo, no decorrer da independência e formação do capitalismo na sociedade norte-americana, a concepção de superioridade racial de grupos étnicos europeus torna-se um elemento importante na estrutura simbólica e social.
Foto: https://baiaviva.org.br/racismo-estrutural-dos-eua/
O movimento feminista questiona especificamente a supremacia dos homens. A ideia de supremacia branca constitui um dos princípios morais e culturais recorrente nos discursos e práticas que acompanham a história do movimento feminista norte-americano.
Concepções hierárquicas aparecem na estrutura cultural e simbólica nos processos de colonização. Essas noções se reproduzem nas relações sociais, nas construções discursivas e no sistema legislativo no caso da sociedade norte-americana, envolvendo a intersecção entre raça, classe e gênero. Recorrente nos discursos, a inferioridade dos povos africanos e das mulheres era vista como uma verdade inquestionável. Angela Davis (2016) cita a Declaração de Seneca Falls, de 1848. “A declaração afirmava que, como consequência da condição de inferioridade das mulheres no interior do casamento, elas também eram sujeitas a desigualdades nas instituições de ensino e na carreira” (DAVIS, 2016, p. 65).
Observa-se a intersecção entre as formas de opressão de classe e gênero. O caráter interseccional das opressões sofridas por mulheres conduz elas a movimentos sociais de resistência às relações de poder da cultura patriarcal.
Angela Davis (2016, p. 81) aponta o vínculo “entre racismo, viés de classe e supremacia masculina […]”. Durante o “primeiro encontro anual da Associação pela Igualdade de Direitos, em maio de 1867, Elizabeth Cady Stanton”, feminista e abolicionista, defendeu a ideia “de que era mais importante que as mulheres (isto é, as mulheres brancas anglo-saxãs) recebessem o direito ao voto do que os homens negros” (DAVIS, 2016, p. 81). O movimento feminista norte-americano se aproxima cada vez mais da supremacia branca e do racismo.
As leis Jim Crow institucionalizaram a segregação racial nos Estados Unidos, proibindo a presença de pessoas negras em locais e serviços públicos, escolas e meios de transporte. A referida lei vigorou durante o período de 1876 a 1965. No capitalismo, a hegemonia branca e heterossexual encontra-se no topo da hierarquia das relações de poder.
Na perspectiva de Angela Davis (2016, p. 101), “racismo e sexismo convergem […]”. Discursos racistas classificam e inferiorizam pessoas e grupos étnicos. Segundo as teorias raciais, “a população negra era supostamente incapaz de progressos intelectuais” (DAVIS, 2016, p. 109). Apesar de discursos que defendiam a incapacidade intelectual de pessoas afrodescendentes, o acesso ao conhecimento era propiciado por algumas escolas norte-americanas. Entre o final do século XVIII e o século XIX foram criadas várias instituições educacionais para pessoas negras nos Estados Unidos. “As pessoas negras que recebiam instrução acadêmica inevitavelmente associavam o conhecimento à batalha coletiva de seu povo por liberdade” (DAVIS, 2016, p. 112). Angela Davis (2016, p. 113) destaca “que os limites impostos à alfabetização da população escrava nos estados escravagistas eram muito mais rígidos do que no Norte”.
Por volta da “última década do século XIX”, o movimento “pelo sufrágio feminino começou a aceitar definitivamente o abraço fatal da supremacia branca” (DAVIS, 2016, p. 121). Em tal contexto, observa-se uma aproximação entre o racismo e a supremacia branca no movimento feminista norte-americano. As mulheres afro-americanas são excluídas, consideradas inferiores pelas mulheres brancas. “Com a chegada do século XX, um casamento ideológico sólido uniu racismo e sexismo de uma nova maneira” (DAVIS, 2016, p. 127). Os laços entre a supremacia branca e a supremacia masculina tornaram-se mais estreitos.
Referência:
Nísia Floresta
(Trecho retirado do livro Raízes da razão androcêntrica,
da autoria de Guilherme Paiva de Carvalho, publicado pela Editora Atena)
Foto: https://meuladopoetico.com/poetas/nisia-floresta
Dionísia Gonçalves Pinto, ou Nísia Floresta Brasileira Augusta — como ela quis ser reconhecida —, nasceu na capitania do Rio Grande do Norte, em 1810. Viveu no Brasil e na Europa, vindo a falecer na cidade de Rouen, na França, em 1885. No século XIX, Nísia Floresta questionou a inferioridade feminina, defendendo a igualdade de direitos para as mulheres.
Durante a infância, Nísia estudou em um convento, na cidade de Goiana. Na época, meninas casavam-se na adolescência. Não foi diferente para Nísia, que se uniu em matrimônio com Manuel Alexandre Seabra de Melo, em 1823. O casamento durou meses e Nísia decidiu se separar, voltando para a casa dos seus pais.
Em 1832, residindo em Recife, Nísia Floresta conheceu a obra Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher, da autoria de Mary Wollstonecraft (2016). Para Mary Wollstonecraft (2016, p. 25), a “educação negligenciada” corresponde à “principal causa da miséria […] de que as mulheres, em particular, são tornadas fracas e infelizes por uma variedade de causas concomitantes […]”. A falta de acesso ao conhecimento resulta na subordinação das mulheres.
No limiar do século XIX, o Brasil declarou a sua independência política, no ano de 1822, formando uma monarquia constitucional. O trabalho escravo continua como modo de produção das riquezas, enquanto se reproduzem nas famílias aristocráticas os valores culturais do patriarcado.
No contexto histórico dos séculos XVIII — o século das luzes, na perspectiva do discurso masculino europeu —, fatos históricos movimentaram a Europa. A Revolução Francesa, apesar de promover debates sobre igualdade, liberdade e democracia, não estendeu a participação política e a cidadania para as mulheres. A execução de Olympe de Gouges, em 1793, na França, evidencia que as democracias nascentes não tinham a intenção de conceder nenhum direito, muito menos a cidadania para as mulheres.
Para Mary Wollstonecraft (1759-1797), “a concepção de que o campo da razão era privilégio dos homens, criando certa noção de hegemonia do masculino na área das ciências, foi um fenômeno do século das Luzes” (apud CAMPOI, 2011, p. 198).
O livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens aborda as desigualdades e a condição de injustiça que os homens impunham às mulheres. Segundo Isabela Campoi (2011, p. 207), no livro, Nísia Floresta “sugere que se valerá da razão para debater os costumes, que, inquestionáveis, contribuem para enraizar as diferenças sociais entre os sexos”. Na educação, a razão androcêntrica finca suas profundas raízes.
Nísia Floresta questiona a concepção de superioridade dos homens fundada na razão e a privação do acesso das mulheres ao conhecimento científico. Como são impedidas de ter acesso ao conhecimento, as mulheres não podem desenvolver a intelectualidade. Isso posto, a desigualdade entre homens e mulheres fundamenta-se na privação do acesso ao conhecimento.