(Trecho retirado do livro Raízes da razão androcêntrica, da autoria de Guilherme Paiva de Carvalho, publicado pela Editora Atena)
Dionísia Gonçalves Pinto, ou Nísia Floresta Brasileira Augusta — como ela quis ser reconhecida —, nasceu na capitania do Rio Grande do Norte, em 1810. Viveu no Brasil e na Europa, vindo a falecer na cidade de Rouen, na França, em 1885. No século XIX, Nísia Floresta questionou a inferioridade feminina, defendendo a igualdade de direitos para as mulheres.
Durante a infância, Nísia estudou em um convento, na cidade de Goiana. Na época, meninas casavam-se na adolescência. Não foi diferente para Nísia, que se uniu em matrimônio com Manuel Alexandre Seabra de Melo, em 1823. O casamento durou meses e Nísia decidiu se separar, voltando para a casa dos seus pais.
Em 1832, residindo em Recife, Nísia Floresta conheceu a obra Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher, da autoria de Mary Wollstonecraft (2016). Para Mary Wollstonecraft (2016, p. 25), a “educação negligenciada” corresponde à “principal causa da miséria […] de que as mulheres, em particular, são tornadas fracas e infelizes por uma variedade de causas concomitantes […]”. A falta de acesso ao conhecimento resulta na subordinação das mulheres.
No limiar do século XIX, o Brasil declarou a sua independência política, no ano de 1822, formando uma monarquia constitucional. O trabalho escravo continua como modo de produção das riquezas, enquanto se reproduzem nas famílias aristocráticas os valores culturais do patriarcado.
No contexto histórico dos séculos XVIII — o século das luzes, na perspectiva do discurso masculino europeu —, fatos históricos movimentaram a Europa. A Revolução Francesa, apesar de promover debates sobre igualdade, liberdade e democracia, não estendeu a participação política e a cidadania para as mulheres. A execução de Olympe de Gouges, em 1793, na França, evidencia que as democracias nascentes não tinham a intenção de conceder nenhum direito, muito menos a cidadania para as mulheres.
Para Mary Wollstonecraft (1759-1797), “a concepção de que o campo da razão era privilégio dos homens, criando certa noção de hegemonia do masculino na área das ciências, foi um fenômeno do século das Luzes” (apud CAMPOI, 2011, p. 198).
O livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens aborda as desigualdades e a condição de injustiça que os homens impunham às mulheres. Segundo Isabela Campoi (2011, p. 207), no livro, Nísia Floresta “sugere que se valerá da razão para debater os costumes, que, inquestionáveis, contribuem para enraizar as diferenças sociais entre os sexos”. Na educação, a razão androcêntrica finca suas profundas raízes.
Nísia Floresta questiona a concepção de superioridade dos homens fundada na razão e a privação do acesso das mulheres ao conhecimento científico. Como são impedidas de ter acesso ao conhecimento, as mulheres não podem desenvolver a intelectualidade. Isso posto, a desigualdade entre homens e mulheres fundamenta-se na privação do acesso ao conhecimento.